Animes fora do Oscar - E porque isso é ótimo

  Um novo ano começa, porém com as mesmas polêmicas de sempre. Com mais uma lista de indicados ao Oscar saindo, é notória a falta de animações japonesas concorrendo ao prêmio, principalmente com o sucesso recente de Tenki no Ko, gerando revolta entre os fãs e curiosidade dos amantes de cinema em geral: Porque essas obras não conseguem no Oscar o mesmo desempenho que em outras premiações? O que pode estar faltando?

  Bom, no dia 13 de Janeiro a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou a lista de indicados a 92 edição do Oscar, e um fato que chamou a atenção do público foi que nenhuma animação japonesa entrou na lista de indicados, dos cinco filmes pré-selecionados para entrar na lista, nenhum conseguiu emplacar esse ano, trazendo mais uma vez a tona o eterno questionamento do porque isso acontece.

  É importante citar que esse debate voltou a ser assunto do grande público recentemente, em 2017, quando Your Name, filme de Makoto Shinkai, batia recordes e mais recordes de bilheteria e agradava a crítica, sendo inclusive eleito o melhor filme animado de 2016 pela Associação dos Críticos de Cinema de Los Angeles. Porém, repetiu a escrita dos anos anteriores e ficou fora do Oscar, gerando revolta e muitas críticas a Academia, deixando claro que qualidade não é o único quesito para ganhar o prêmio, mas ainda acho que o buraco é um pouco mais embaixo.

  É claro e evidente que a votação é parcial, não existem dúvidas disso. Desde a criação da premiação, em 2002, somente seis filmes foram indicados, na maioria das vezes como favoritos, mas apenas uma vitória com A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki, em 2003. Os vencedores e indicados restantes acabam sendo todos vindos da parceria Disney-Pixar, com pequenas exceções da DreamWorks aqui e ali, mostrando uma preferência dos votantes pela empresa, e as vezes um desconhecimento sobre outras obras ao redor do mundo. E isso inclusive é dito por muitos críticos quando perguntados sobre esse assunto, afirmando que os membros do Oscar não são obrigados a assistir a todos os filmes e há poucos entre eles que são especializados em animação. Em 2014, a maioria dos jurados assumiu ter visto somente o filme vencedor, Frozen. Todos esses fatores acabam complicando o desempenho de bons filmes animados no Oscar, visto que não basta ser bom, também precisa ser bem relacionado com atores e diretores principalmente nos Estados Unidos, visto que para votar é necessário já ter sido indicado anteriormente, fazendo com que o networking seja o principal fator, e não a qualidade em si.

  Querendo ou não, o fato de ganhar um Oscar atrai público, por muito tempo a premiação acabou sendo meio que um norte para o público. Com esses problemas acontecendo, os filmes do oriente acabam não ganhando tanto destaque nos cinemas, bilheterias e grande mídia, o que acaba não colaborando para uma maior difusão das animações orientais no ocidente. Por consequência, o estimulo financeiro que essas obras recebem por aqui acaba sendo menor do que deveria, fazendo com que o Japão permaneça com a ideia de ser um país fechado para o resto do mundo no quesito cultural, não vendo necessidade de ter seus filmes no ocidente por que, bem, não tem o lucro que deveria em comparação com o público doméstico.

  Por outro lado, hoje em dia os serviços de streaming estão cada vez mais presentes em nosso consumo de conteúdo e, aos poucos, vem trazendo cada vez mais filmes e séries animadas para seus catálogos, apresentando-os para um novo público e expandindo seus interesses, contribuindo para uma nova leva de fãs dessas obras, acabando de forma crescente com a influência das premiações sobre a escolha do público em geral.

  Isso sem contar que a maioria dos espectadores está cada vez mais questionando a credibilidade do Oscar, principalmente por conta de que a maior parte dos jurados estão parados no tempo, quase todos acima dos 50 anos e majoritariamente americanos, que não tentam abrir a mente a novos conteúdos que não sejam da Disney/Pixar ou dos Estúdios Ghibli, que também são distribuídos pela Disney. Todo esse movimento fez com que vários diretores, compositores e figuras conhecidas no meio artístico fossem convidados para fazer parte do júri, inclusive o próprio Makoto Shinkai chegou a ser convidado, mostrando uma tentativa da academia de acompanhar a renovação que acontece junto com o público, ao trazer novos nomes para a votação.

  No fim das contas, o certo é que esse problema não vai se resolver tão cedo. Como toda renovação, essa também será lenta e com resultados após alguns anos, mas é bom saber que depois de tanto barulho, essa discussão chegou na crítica especializada e tratá consequências para as próximas edições do prêmio. Melhor que isso, podemos estar diante de um cenário que, na minha opinião, é o melhor possível. Com tantas plataformas de streaming propagando cada vez mais filmes ignorados pela crítica, o público se mostra cada vez mais independente da crítica para conhecer esses filmes, e suas bilheterias recentes provam isso, e aos poucos mais e mais animes disputam espaço nos cinemas mundo afora. Se vamos continuar vendo esse crescimento constante, só o tempo vai dizer, mas a tendência é essa.

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