Tenki no Ko - Não é só um rostinho bonito


  E se fosse possível controlar as ações da natureza, e até evitar grandes catástrofes, em troca do sacrifício de uma pessoa, seria o correto a se fazer? É válido descartar a vida de um em prol da maioria?
  É sobre esses questionamentos que o último grande sucesso de Makoto Shinkai vem a tona, mais uma vez com uma excelente bilheteria e outra discussão enorme sobre merecer ou não um Óscar. Mas será que a obra justifica sua fama, ou melhor, será que responde e desenvolve seus questionamentos de forma satisfatória, e dessa vez fazendo sentido para o que a narrativa cria?


  Bom, em Tenki no Ko somos apresentados a Hodaka,um estudante do ensino médio que foge de sua casa em uma ilha isolada e se muda para Tóquio, onde ele rapidamente acaba sem dinheiro para conseguir viver. Em desespero, vive seus dias isolado até que finalmente acha um trabalho como escritor para um revista desconhecida de ocultismo.. Estranhamente, depois que ele chega em Tóquio, o tempo começou a se manter chuvoso todos os dias. Em um canto da cidade movimentada e lotada, Hodaka conhece uma jovem chamada Hina, que devido a certas circunstâncias, mora junto de seu irmão mais novo, porém tem uma vida alegre e intensa. Hina também tem um certo poder: ela pode parar a chuva e limpar o céu.

  Pra começar eu preciso dizer que tenho um sério problema com os filmes do Makoto Shinkai. Desde que assisti Your Name, eu tive a sensação de que ele é ótimo cuidando da parte visual da animação, porém se aventura pela criação de roteiros quando não deveria porque, bem, ele é péssimo nisso. Mas até que nesse filme ele se saiu bem nesse quesito, com um bom argumento. Para analisar o filme, acabamos caindo em comparações com Your Name, pois embora tenha um bom conceito sobre o qual o conceito se constrói, o filme não é tão original, e bebe diretamente de aspectos do filme de 2016.


  Ambos os filmes tratam de um mesmo tema, porém com diferentes abordagens. Enquanto em Kimi no na wa temos um paralelo entre a tradição japonesa e metrópole adequada aos padrões ocidentais, aqui o autor tenta nos passar a ideia de uma metrópole em declínio, ao mostrar que embora o deslumbre da cidade grande para um garoto do interior possa ser algo intenso e incrível, logo ele percebe os pequenos detalhes intrínsecos a cidade, com toda a sua sujeira, os prédios abandonados, a burocracia, até mesmo a posse de armas é criticada no filme, afinal foi o que fez toda a situação com a polícia se tornar maior do que precisava.

  O filme não se dá muito ao trabalho de explicar o porque as coisas chegaram a situação em que estão, mas o Japão está passando por fortes chuvas e é isso, não tem o que fazer. O autor nos apresenta as forças da natureza como uma força que sempre existiu e que tem seus próprios rumos, inalcançável para os desejos dos homens. E nisso o filme cria um bom questionamento, se fosse possível impedir o inevitável, desde que para isso fosse preciso um sacrifício, o que vale mais, o bem de um ou de vários?

  Junto com esse questionamento, também podemos reparar que mesmo com todo o crescimento da metrópole, eles continuam dependendo da natureza para chegar onde querem, isso é mostrado a medida que a Hina é cada vez mais exigida como Garota Sol, e em como simples crianças consideradas ingênuas são as que trazem solução para os problemas do adultos, a partir de sua fé, de suas orações, na crença de algo que não pode ser explicado, algo místico.


  Os personagens principais são até que bem trabalhados para a narrativa criada, só que com tanta coisa acontecendo, acaba que não temos quase nenhum tempo de tela para ver o desenvolvimento do romance entre Hodaka e Hina, temos apenas uma sequência de time-skip dos dois mostrando seu cotidiano, e é isso, estão perdidamente apaixonados. Se fosse outras circunstâncias isso até me incomodaria mais, mas eu já fui ver o filme sabendo que o autor não sabia desenvolver os personagens para fazé-los parecer mais reais, então dá pra relevar esse ponto. Também vemos a convivência de Hodaka com Kei e Natsumi, de como Kei vê nosso protagonista como uma versão mais jovem dele mesmo, inclusive não querendo que ele continue em sua busca por Hina, por se preocupar com ele, e querer ajudá-lo a superar a perda de um amor, assim como Kei perdeu sua esposa, quando o manda para casa, falando que está na hora de crescer. Mais um ponto interessante, é justamente o paralelo do filme, quando Hodaka luta contra tudo e todos não somente por Hina, mas também para não crescer e ser mais um adulto sem esperanças, ele quer continuar acreditando, continuar tendo fé de fazer do mundo um lugar melhor. É meio que a mensagem do filme, a fé da próxima geração que salvará o mundo, contra uma sociedade que voltou as costas para as tradições orientais e a natureza.

  Bom,sobre a parte visual da obra, Makoto Shinkai mais uma vez não decepciona. O filme é extremamente bem detalhado, com lindos cenários que dão mais peso para as cenas e para a narrativa como um todo, sem sombra de dúvida nada a reclamar por aqui, embora a caracterização dos personagens seja um pouquinho genérica, lembro de um momento que fiquei maluco pensando se um determinado personagem em cena era o Taki, de Your Name, mas acho que isso seja só questão de estilo mesmo. Gostei bastante da trilha sonora, vi a letra delas enquanto assistia e elas falam muito sobre o filme, acrescentam ainda mais a experiência visual.

  No fim das contas, é uma obra com uma boa proposta, com um conceito interessante sobre como tudo que nas tradições ocidentais tem um significado, como quando as nuvens são comparadas com oceanos e lagos, e por isso as gotas de chuva se comportam como peixes quando chegam ao solo, e de como os homens racionalizaram esses conhecimentos e simplesmente esqueceram das tradições, e também de que isso acarreta toda a problemática do filme. De fato, é uma narrativa bem pensava, porém com problemas de execução, o que era de se esperar.


  Se você não for chato como eu, dá pra relevar tranquilamente esses problemas e se divertir com o filme. O melhor personagem com certeza é o Nagi, consegue transitar tranquilamente entre ser uma criança e agir como adulto, um autêntico sobrevivente!

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