Invasão Zumbi | Crítica


  Netflix e sua habilidade de esconder grandes pérolas do publico em geral. Grandes temas já foram usados e reutilizados pela indústria do cinema, temas que envolvem fantasmas, possessões demoníacas, vampiros, e nesse caso, os zumbis. Nos últimos anos, a safra foi gigantesca com filmes e séries como Guerra Mundial Z; Zumbilândia; Orgulho e Preconceito e Zumbis; Meu Namorado é um Zumbi; Todo Mundo Quase Morto; a franquia Resident Evil; a série The Walking Dead; Z Nation e por aí vai. Mesmo com essa grande quantidade de filmes e séries, é necessário entender que mesmo que surja um ligeiro sentimento de desgaste, percebemos o quão ligados estamos com esse gênero, e que apesar da vasta gama de filmes, não vamos parar de ir aos cinemas para ver.
  Surgindo e ganhando um enorme número de fãs, especialmente por conta de George A. Romero com o seu eterno A Noite dos Mortos-Vivos (1968), esse gênero rendeu ao público centenas de projetos. Como já falamos mais acima, esse tema é tão usado que vários e vários países já produziram sua própria visão dos mortos-vivos, e foi a vez da Coreia do Sul nos entregar Invasão Zumbi – titulo nacional que chega a beirar a vergonha alheia de tão preguiçoso foi a escolha desse nome na hora da tradução. Ele chega surpreendendo a todos pela qualidade de sua produção, e por uma nova abordagem aos famigerados mortos-vivos. Mais um para o grande acervo de filmes de zumbi e que merece (e muito) ser assistido.

  Pelo grande acúmulo de filmes de zumbi, é comum que eles tenham grandes semelhanças. Levando em consideração não apenas os zumbis, mas também as ideias propostas durante o filme e na execução feita, como a gigantesca quantidade insana de zumbis, a velocidade absurda que eles possuem e o ataque letal, o filme se compara bastante com Guerra Mundial Z, estrelado por Brad Pitt. O filme procura ter como base alguns clássicos, como Madrugada dos Mortos, trazendo locais infestados de zumbis, alguns escondidos por lugares que fazem com que os personagens cheguem a beirar a loucura, e sobreviventes achando alguma forma de sair com vida de certos lugares. Mesmo com os clichês já conhecidos, ele consegue fazer algo que poucos filmes desse gênero executam com maestria: a imersão do telespectador e o apego do publico aos personagens. Ele é dramático ao ponto de fazer o espectador refletir sobre seus próprios dramas pessoais, por conta dos assuntos abordados durante a história. Graças a mão certeira do diretor Sang-Ho Yeon, que trabalha temas como família, superação e amor, que acabam gerando no público uma conexão com a história logo nos primeiros minutos.



  No início, nos é apresentado Seok-woo, um pai separado após seu casamento não suportar o seu estilo de vida voltado totalmente para o trabalho. Ele mora junto de sua filha, mas após alguns acontecimentos relacionados ao pai, ela decide ir morar com a mãe. O início não parece com o que já conhecemos e o momento que os mortos vivos são inseridos dá uma guinada de forma extremamente positiva para a trama.

  Temos ação em todo o momento, quase o filme todo se passa dentro de um trem em movimento, indo para Busan. Graças a jogada de câmera é possível ter uma sensação de claustrofobia ou algo que não sabemos o que pode acontecer se ele abrir uma porta ou pisar em certo lugar, sendo assim, fazendo com que o público fique apreensivo o tempo todo, pois é nítido que a ameaça é real e visível. Com isso, ocorre uma limitação espacial que compromete algumas coisas, mas favorecendo ao público outras coisas, especialmente para a experiência sensorial do espectador. Um ponto positivo é o roteiro, exigindo dos personagens soluções que acabam colocando em primeiro lugar a si do que o próximo, gerando o antagonismo – lembrando o conhecido O Nevoeiro (2007). Os zumbis sendo trabalhados como um desastre natural letal, enquanto as pessoas entram em conflito pela sobrevivência.

  Como é nítido ao longo do filme, os zumbis entregam características semelhantes aos do Guerra Mundial Z, sendo aqueles mortos-vivos ligeiros, malucos e 100% violentos. Lembrando bastante as cenas em que os zumbis formam pilhas e pilhas em busca de suas presas. Invasão Zumbi trabalha com um tema interessante, mostra que nem sempre o vilão são os mortos-vivos sedentos pela carne humana. É trabalhada a natureza humana de forma negativa, mostrando que quando somos levados ao limite, atitudes egoístas, pensamentos que favorecem a si são trazidos à tona e acabam se chocando com os sentimentos de fraternidade e amor ao próximo. É mostrado que cada ser humano é único, cada sentimento e laço é único, e cada atitude é uma porta aberta para diversas consequências, sendo positivas ou negativas para o coletivo.



  O longa não somente consegue manter o nível de perigo dos zumbis, como também apresenta aos poucos a reação humana a diversos acontecimentos capazes de deixar o público refletindo sobre que atitude você tomaria no lugar daquele personagem. São mostradas ações que beiram a crueldade, de pessoas que não possuem coração. Mas será que no lugar dele, não teríamos feito o mesmo? Atitudes que mostram que a humanidade, mesmo em um apocalipse zumbi, ainda tem esperança, mas será que você teria coragem de fazer o mesmo naquela situação? O filme apresenta diversos personagens, julgados na mente do público como vilões e mocinhos, que lutam pela sobrevivência, cada um de sua própria maneira.

  Invasão Zumbi não é um filme perfeito, não é um filme que veio para inovar a indústria de filmes do gênero, tem momentos que o roteiro entrega coisas que chegam a ser cômodas, que na nossa cabeça fica a sensação que poderiam ter sido trabalhadas melhor, mas são momentos raros. Apesar de algumas atitudes que parecem desconexas com a história, o filme consegue prender a atenção do público, deixando fluir sentimentos de medo, tensão, tristeza, felicidade e de revolta. Ou seja, não é perfeito, mas consegue evocar os mais diversos sentimentos no espectador, algo plausível de se ver.

  Por fim, com duas horas que passam correndo (desculpem esse trocadilho), o filme vai muito além do que é proposto e entrega atuações emocionantes e convincentes. Esse filme é super recomendado e digno de ser visto e revisto por todos.

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