AnimeTopic 019 - Sora Yori Mo Tooi Basho


  A adolescência é moldada por muitas descobertas sobre o mundo e principalmente sobre si mesmo. É nessa época de insegurança e inocência que nós finalmente saímos em busca de uma motivação para viver e nos transformamos em adultos de verdade. Com isso, várias reflexões vem a nossa mente, e nos questionamos se é natural que nossa vida seja mundana e comum, pensar que nossas vidas não tem sentido, se é isso mesmo que nós queremos, ser apenas mais um entre a multidão de pessoas em nossa sociedade. Ou até mesmo se é só isso que conseguiremos alcançar.

  É exatamente sobre esse pensamento que acompanhamos a jornada de Mari Tamaki, desde sua decisão de que queria sair desse caminho, desse lugar comum, e fazer de sua vida algo marcante. Pela incrível coincidência de conhecer alguém que teve a inabalável determinação de seguir os passos de sua mãe, Mari decidiu que era isso. Ela queria que sua vida fizesse sentido, ela não queria uma vida comum, mas sim algo grandioso em sua vida, do tamanho de sua determinação. Quem sabe do tamanho de um continente.

  A história de Yorimoi, pra simplificar afinal o nome é gigantesco, segue uma estudante do ensino médio chamada Mari Tamaki que quer aproveitar ao máximo sua juventude, mas ela tem medo de tomar alguma atitude. Um dia ela encontra Shirase Kobuchizawa, uma garota que está economizando para viajar para a Antártica para encontrar sua mãe desaparecida. Junto com duas outras meninas, Hinata e Yuzuki, elas se juntam para uma expedição em direção à Antártica. Bem, o anime logo estabelece porque cada garota quer (ou não) ir para a Antártica e sair de um caminho relativamente normal de suas vidas para mostrar às pessoas que esse não é um sonho impossível. 

  Bom, o senso de aventura é diferente de qualquer obra que já vi, acabou adicionando muito charme à narrativa, o que você não encontra em muitos animes de doze episódios, sem contar que Yorimoi equilibra perfeitamente os momentos cômicos com as cenas mais emocionantes. As piadas acabam encaixando bem, o que torna a experiência mais agradável, e o mesmo vale para os momentos emocionantes da obra, onde acertam em cheio o espectador, com um enredo muito bem amarrado. O ritmo do anime foi muito bem conduzido, com bons diálogos, construção de mundo e ótima exploração de temas envolvendo toda essa questão do fim da juventude e dos rumos que nossas vidas tomam nessa época. A emocionante história sobre quatro garotas do ensino médio tentando chegar à Antártica por seus respectivos motivos nos mostra como a vida pode ser divertida se tirarmos o máximo proveito dela. Os personagens são todos bem desenvolvidos, cada um com seu próprio motivo para perseguir um objetivo aparentemente absurdo. Nos primeiros episódios, esses motivos foram apresentados e usados ​​para conectar essas garotas, para construir uma amizade baseada em pequenos problemas relacionados entre si e ter como objetivo final ir para a Antártica, o que acabou por ser a resposta para todos os seus problemas. Durante a jornada de preparação e ida para a Antártica, que pra mim é o principal arco da história, elas se deparam com muitos contratempos que geralmente são resolvidos a cada episódio, mas no final, criam uma atmosfera de resolução e servem para fortalecer sua amizade. Quando as garotas finalmente chegam à Antártica, elas puderam vivenciar uma experiência totalmente nova, com todas as coisas que aprenderam no caminho até lá, se deparando com um cenário totalmente novo, criando e experimentando amizades ao longo de uma jornada. Você sente que está vivenciando a jornada e sentindo suas emoções junto com elas.


  O ponto principal do anime são seus personagens, onde todos funcionam entre si e interagindo com o cenário de uma maneira muito bem encaixada, e isso acontece porque elas parecem reais. Os diálogos são os mesmos que você poderia ver facilmente entre garotas do ensino médio, elas riem e choram juntas, mas os detalhes que tornam sua personalidades únicas não são afetados por isso.  A Mari é muito intensa, ela representa a fase mais comum da juventude, quando ainda mostramos muitas características da infância e estamos buscando crescer, mesmo que as vezes não faça o menor sentido. Por sentir que está desperdiçando sua infância, ela está em busca de uma aventura marcante para sua vida, e nisso nasce sua vontade de ir para a Antártica com Shirase depois de se conhecerem. e nisso chegamos no que pra mim é a dupla principal da obra. A Shirase eu vejo como outro arquétipo bastante comum da adolescência, do jovem tímido com os outros, mas que quando está com os amigos acaba mostrando quem é de verdade, uma pessoa imprevisível e bastante divertida até. É ela quem faz a história se mover, já que é a primeira das meninas que decide ir para a Antártica e que põe esse desejo no coração de todas e acima de tudo em sua vida. Tudo isso vem de sua mãe, Takako, que foi para a Antártica quando a filha era criança, mas acabou desaparecendo. Shirase está determinada a ver o que levou sua mãe à Antártica e experimentar o que ela experimentou. Essa dualidade entre ambas, de mostrar os dois lados de uma mesma moeda de sair da infância e crescer, cada uma a seu modo, é algo muito interessante de acompanhar e nos deixa sempre ansiosos pela conclusão.

  Enquanto vemos essa interação, temos também outro aspecto sendo trabalhado, sobre as garotas que já vivem a vida adulta, embora estejam nos primeiros passos dessa nova fase. Temos a Hinata, que é vibrante e atua como o alívio cômico da obra, ela se junta a aventura por impulso, apenas porque lhe parece divertido. No começo parece apenas uma personagem engraçada, com pouca ou nenhuma profundidade, mas aos poucos aprendemos mais sobre ela e seu passado, e vemos quantas camadas realmente existem sendo trabalhadas ali. Vemos sua luta contra a solidão por ter sido rejeitada na escola, o anime consegue transmitir a dor que ela está sentindo, e ela é definitivamente a personagem que mais cresce ao longo dessa jornada. Vemos também a Yuzuki, que é a mais introvertida do grupo, por isso demora um pouco para se abrir para as outras garotas. Aqui temos um ponto fora da curva, pois ela era a única que não queria viajar para a Antártica, mas acaba mudando de ideia por causa de seu desejo de fazer amigos de verdade e estabelecer relacionamentos verdadeiros pela primeira vez na sua vida. Isso nunca foi possível porque, desde jovem, Yuzuki é uma idol, o que a torna uma pessoa muito ocupada. Nunca tendo tempo para amigos e mesmo quando tinha, não tinha tempo para sair com nenhum deles, matando lentamente os poucos relacionamentos que tinha. Aqui temos outra dualidade, ambas não tem amigos por conta dos caminhos que suas vidas tomaram, mas enquanto uma nunca teve essa oportunidade, outra não quer amigos, ou não consegue confiar demais em ninguém. Mais uma interação muito interessante de acompanhar, ver como elas vão reagir a tudo que essa jornada causará nelas, e como vão reagir a essas novas amizades surgindo e fortalecendo.

  Mas o anime não é construído somente desse quarteto. A Megumi, uma amiga de infância da Mari, acaba por ser a âncora que puxa a Mari de volta a realidade diante de suas decisões e vontades aparentemente impossíveis, mas com o tempo vamos percebendo que ela na verdade está podando a liberdade de sua amiga ao tentar "cuidar" dela. Ela simboliza o cruzamento do primeiro limiar na jornada do herói da Mari, então mesmo nessa amizade, de certa forma abusiva, ela tem uma função na obra, algo essencial na verdade. A Gin é uma das pessoas que participou da expedição à Antártica onde Takako (a mãe de Shirase) desapareceu. Por conta disso, vemos sua ligação com Shirase, e a forma como elas lentamente desenvolvem um vínculo, apesar de tudo que aconteceu no passado, é muito bem construída.


  Sobre a animação, a Madhouse deu mais um show, eles são conhecidos por fazer animes com uma produção incrível e com essa obra não é diferente. Yorimoi é lindo, as decisões de direção pesaram bastante nesse aspecto, de forma positiva. Os cenários são bem bonitos e detalhados, e a fluidez da animação tornam toda a experiência bem melhor. Por exemplo, nos primeiros minutos do episódio um, o anime estabelece a personagem principal, que quer ser uma garota aventureira, embora ela nunca tenha se aventurado em toda sua vida. No entanto, quando finalmente decidiu dar o primeiro passo em direção à aventura, porém, o trem sai da estação e vemos a Mari parada ali. Ela continua se sentindo aventureira, embora ela não saiba interpretar isso de imediato. A próxima cena nos mostra os sapatos de Mari molhados e aqui por si só já simboliza perfeitamente o mundo real, a realidade de que, deixar a escola e partir para essa aventura estava sendo, na verdade, mais complexa do que ela pensava a princípio. Também podemos observar a semelhança entre os elementos reais mostrados no anime com a versão real deles. Por exemplo, a Estação Showa realmente existe e é muito bem representada na obra, além de seu navio, o Quebra-Gelo Shirase, que na vida real é bastante semelhante com o mostrado no anime. O visual da Antártica é algo novo para nós, espectadores de anime, já que não vemos muitos animes se passando em um cenário completamente branco, então foi uma forma diferente de trabalhar, e acabaram se saindo legal nisso, usando bem aquela imensidão branca.

  A trilha sonora é a área menos impactante de Yorimoi, mas não é exatamente ruim. A abertura e o encerramento são bons, colaboram para manter o ambiente criado pelo anime, e acrescentam à carga emocional de alguns episódios específicos, mas acabam sendo esquecíveis, principalmente a abertura. O encerramento ainda coopera para fechar com chave de ouro os momento-chave dos episódios, mas sinto que mesmo essa música poderia ser substituída por qualquer outra música que passe emoção ao ouvinte. Faltou um pouco mais de cuidado nessas duas partes, mas a trilha sonora durante os episódios não deixa buracos na trama, então dá pra relevar.

  A história foi incrível, acompanhada de ótima escrita, construção de mundo, temas e ritmo. Os personagens são bem desenvolvidos, o visual é brilhante e a trilha sonora é boa. Esse é um exemplo perfeito de como fazer um bom anime moderno de doze episódios, que muitos não parecem saber fazer porque toda temporada sai muita coisa com potencial bom, mas que é desperdiçado da pior forma possível. A obra consegue representar muito bem esse aspecto da adolescência, de marcar um período em que passamos por grandes mudanças e crescemos como pessoa. Agimos irracionalmente, fazemos discursos grandiosos e escondemos coisas que não deveriam ser escondidas, e elas fazem porque podem, porque é o normal para a fase que estão passando em suas vidas. Elas falham constantemente, mas todos os seus erros as ajudam a crescer como pessoas e a formar laços ainda mais profundos de amizade entre si. É durante esses momentos que suas fraquezas e cicatrizes do passado ganham destaque.

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