Bravely Default - A bravura de ser diferente


  Todos nós sabemos que Final Fantasy é uma franquia clássica e icônica que inspirou, inspira e vai inspirar vários criadores de jogos RPG através dos anos. E mesmo a famosa franquia da Square teve suas raízes mais simples, mas que ajudaram a definir o gênero na época do Nintendinho, com seus estereótipos que logo se tornaram características do gênero de JRPG. E Bravely Default: Flying Fairy, desenvolvido pela Silicon Studio para o Nintendo 3DS, sendo publicado pela própria Square-Enix, é um dos vários jogos que bebem da fonte que Final Fantasy criou, mas sabendo medir a sua cota de inspiração e de novidade. Com personagens incríveis, um plot interessante, e um sistema de batalha diferenciado, mas tudo sendo bastante familiar. Temos um jogo centrando suas raízes nos títulos mais antigos de Final Fantasy (tanto que seu subtítulo se abrevia com "FF" como uma lembrança das origens do jogo) com seus elementos e clichês, como o sistema de jobs, cristais elementais, e quatro heróis dispostos a salvar o mundo. Porém, a história ao redor desse jogo começa bem antes de seu lançamento, e até mesmo do 3DS ter sido anunciado, e para entender exatamente a jornada dos nossos heróis da luz, precisamos revisitar outros heróis, lá em 2009, quando foi lançado Final Fantasy: The 4 Heroes of Light, no Nintendo DS.

  O jogo que chegou ao console portátil da Nintendo, foi um spin-off para a franquia da Square, desenvolvido pela Matrix Software. No Japão conhecido como Final Fantasy Gaiden, 4 Heroes of Light chegou na proposta de ser um FF mais old school, com a intenção de ter a história e personagens mais desenvolvidos e significativos do que os primeiros títulos da franquia, que não apresentavam histórias muito interessantes, servindo apenas de justificativa para a gameplay. Partindo desta ideia, o jogo chegou nas lojas e vendeu aproximadamente 180 mil cópias. Apresentando também um sistema de jobs, e um plot mais interessante, apesar de simples. Com um sistema de batalha de turnos, que utiliza o elemento de "action points" para se diferenciar, com simplicidade. Cada personagem tendo cinco pontos, e cada ação gastando um deles, como atacar, usar itens ou magias, e todo turno os personagens ganham mais um ponto. 
 

  Posteriormente, com o Nintendo 3DS anunciado e indo ao mercado, a Square tinha a intenção de lançar uma sequência para o 4 Heroes of Light para o console, porém a ideia foi descartada pela preferência da produção de uma nova IP, e mais tarde, veríamos Bravely Default como o resultado dessa decisão da empresa.

  De acordo com Tomoya Asano, o produtor do jogo, o desenvolvimento havia sim começado como a sequência do título de 2009, e faria parte da franquia Final Fantasy, mas apesar da opção de trabalhar com o principal núcleo da Square, ele queria estabelecer uma nova marca. Algo que ele acabou refletindo em sua obra já que, segundo o próprio produtor, "Bravely Default" significa ter coragem e não seguir cegamente o que te dizem, e agir de acordo com seu desejo, sendo o tema central do cenário do jogo, o que é perfeitamente representado nas palavras de um certo personagem: "Tenha a coragem para pensar e agir, tenha a coragem para desobedecer". E então entraram na fase inicial do plano com o time de desenvolvimento original fazendo contato com a Silicon Studio, que fez uma demo para o projeto, e com uma boa recepção, se estabeleceram para desenvolver o jogo. Mesmo se distanciado de Final Fantasy, foi mantido tanto o sistema de turnos quanto uma construção de mundo similar aos antigos jogos da franquia, e isso foi tanto algo deixado pela antiga forma do jogo, como um artifício para dar aos jogadores uma sensação de familiaridade, assim como a história remetendo bastante à FF, que foi feita tendo em mente ser um jeito simples de se introduzir ao mundo do jogo. A narrativa e a gameplay acabaram sendo bem influenciadas por conteúdo ocidental, de várias mídias, fazendo do jogo, como o próprio Asano comentou, um "Um RPG japonês com conteúdo americano jogado no meio".

  Um dos grande desafios para o desenvolvimento de Bravely Default foi o objetivo de fazer o jogo ser um bom RPG tradicional sem ser entupido de elementos nostálgicos sem propósito, principalmente pelo time de desenvolvimento ter sido formado por pessoas fãs de Dragon Quest e Final Fantasy, ambos clássicos do gênero, como já citado previamente. Apesar disso, um objetivo que Asano tinha em mente era o de manter três elementos já esperados e considerados núcleos de RPGs: Batalhas, evolução e conexão. A meta era manter uma experiência casual, para que qualquer um pudesse jogar, mesmo que nunca tivesse jogado um RPG.

Imagem retirada do canal Quirinus no Youtube

  E onde Bravely Deafult encontra a sua diferença? 
  Ele tem seu incrível brilho nas mecânicas de combate e de administração da party, que tornam toda a experiência bem mais divertida e variada, dando ao jogador inúmeras possibilidades. A partir do sistema de jobs, que foi utilizado em Final Fantasy III, V, e também no 4 Heroes of Light, aqui ele tem uma ótima utilização já que cada personagem pode usar um determinado job e ter outro como "secundário", tendo os comandos do mesmo junto aos do próprio, e com cada um dos quatro personagens podendo carregar características e habilidades de oito jobs no total, o jogador recebe a possibilidade de criar várias parties diferentes e com sincronias diferentes, onde cada membro da party pode ou não complementar aos outros. Com 24 jobs para se escolher, dentre eles vários opcionais, as combinações possíveis são muito vastas. A maioria dos jobs se obtém através de side quests, essas que são muito bem feitas e atrativas, com histórias interessantes em sua maioria e personagens que também são marcantes, tanto quanto os que vemos obrigatoriamente.
 
  O sistema de batalha também se destaca muito, tendo a proposta de permitir que um personagem possa agir mais de uma vez no turno, sendo uma evolução muito grande do sistema que vimos em The 4 Heroes of Light, já que ele também funciona ao redor de pontos de ação. Aqui, chamados de Battle Points. A cada turno, todos na luta recebem um ponto. E além das clássicas ações de atacar, usar item ou magia, também temos "Brave" e "Default", sendo Brave gastar um ponto de ação a mais e agir mais uma vez no turno, com cada personagem podendo agir no máximo quatro vezes num turno, e com mínimo de pontos sendo -4. Caso seus pontos estejam negativos, espere aquele número de turnos para agir de novo. Caso escolha Default, seu personagem defenderá e armazenará o ponto daquele turno, podendo usar Brave sem risco nenhum posteriormente. Esse sistema cria uma situação incrivelmente criativa e adiciona bastante profundidade ao combate de turnos, principalmente pelo fato de seus inimigos também fazerem uso dessa mecânica, oferecendo muitas opções ao gameplay e um ótimo fator de risco e recompensa.

Alguns dos jobs do game

  Algo impossível de não comentar ao se falar de Bravely Default é a arte do jogo, do incrível Akihiko Yoshida, responsável pela arte de diversos jogos da franquia Final Fantasy, como por exemplo, FF XII, Tactics, o próprio 4 Heroes of Light, e até fora dela, em jogos como Vagrant Story e Nier: Automata. Ele tem trabalhos espetaculares e marcantes, sendo chamado de um artista fantástico pelo site da Kotaku, e seu serviço em Vagrant Story e Final Fantasy XII foi chamado de "brilhante" e "refinado" pela IGN. 

  Os cenários em Bravely Default tiveram como maior fonte de inspiração a literatura infantil europeia, como as cidades e o mundo do jogo que foram desenhados à mão e mapeados num layout pseudo 3D, no objetivo de ser similar a livros clássicos que continham bem mais imagens que texto. O design de alguns personagens secundários teve a participação de outros artistas, como Atsushi Ohkubo, autor do mangá Soul Eater, Midori Foo, que trabalhou em diversas light novels, etc. E outro que tem um importantíssimo papel fazendo esse jogo brilhar no sentido artístico é Revo, o compositor da trilha sonora do jogo, que é fenomenal em seu trabalho. O mesmo é o líder da banda Sound Horizon, e em 2012 ele iniciou um novo projeto, a Linked Horizon, que começou com a trilha sonora do jogo extremamente marcante e memorável, inclusive eles mais tarde foram os responsáveis pelas icônicas aberturas do anime Attack on Titan.

Um dos primeiros cenários do jogo

  O jogo também faz um tipo de semi-multiplayer em suas mecânicas, por meio do StreetPass do Nintendo 3DS, podendo usar outras duas opções em batalha, "Send" e "Summon Friend", com a primeira sendo a chance de ajudar alguém, usando um golpe em sua luta e enviando ele, e caso um amigo utilize Summon Friend, ele pode receber a sua ajuda num combate que ele esteja passando por dificuldades, principalmente com a diferença de níveis entre os amigos. Fora isso também há um mini-game que a cooperação de amigos é muito necessária, onde se deve reconstruir a vila de um dos personagens principais, rendendo itens e ataques especiais para a sua party, e esses que são uma parte importante do game. Cada tipo de arma possui um movimento especial específico, que após atingir uma certa condição (Por exemplo, utilizar Brave dez vezes, ou atingir um inimigo com dano crítico três vezes), o jogador pode utilizar o especial que não apenas causa dano ou cura, pois além de mudar a música da batalha para o a música tema do personagem que o usou, ele dá buffs para a party. Quando a música terminar os buffs também acabam, mas é possível utilizar outro especial antes disso, adicionando mais um efeito e mais tempo com a nova música tocando, algo bem dinâmico pras batalhas e algumas vezes tenso em que você se pergunta "Será que vai dar tempo de ativar o outro especial?"

  E nisso tudo, não é possível deixar de citar a parte mais mágica dessa experiência, que são os personagens. Apesar do game ter aquela pegada da tradição de Final Fantasy e muitos clichês envolvidos, eles não deixam de entreter, principalmente nos personagens. Nós acompanhamos a jornada de quatro heróis da luz para despertar os quatro cristais elementais do mundo de Luxendarc. Agnès, a vestal do cristal do vento, calma e centrada em sua missão; Tiz, o garoto destemido que perdeu sua vila e foi o único sobrevivente; Edea, a rebelde nascida no império do mal que deseja controlar os cristais; e Ringabel, o mulherengo desmemoriado, que carrega um estranho diário com a habilidade de prever o futuro. 

  Com exceção de talvez Ringabel, o grupo parece bem formado por clássicos clichês desse tipo de grupo, e é mesmo, mas suas características funcionam tão bem juntas que faz com que acompanhar eles seja algo divertido, e alguns momentos os quatro vão te deixar intrigado e curioso (principalmente Edea e Ringabel). Até com suas conversas, na mecânica de Party Chat, que nos permite ver as conversas dos personagens após algum acontecimento na história, o que nos mostra como eles interagem enquanto andamos pelo mapa.

Da esquerda pra direita: Edea, Tiz, Agnès e Ringabel

  Além disso tudo, não é apenas uma jornada direta, temos inúmeros instantes em que a nobreza de nossa aventura é questionada, e continuamos o caminho com dúvidas e incerteza, já que os inimigos têm seus argumentos e motivos muito bem estruturados na maioria dos casos, e alguns até com um ótimo mistério ao redor deles. Fora alguns plot-twists bem interessantes, que tem sua dose de previsibilidade mas não perdem mérito por isso. Tudo isso alinhado a um mundo incrível, que tem uma história muito intrigante que vamos descobrindo ao longo da jornada, e dependendo do jogador, nas side quests também.

  Agora, vamos para as coisas negativas do game que impedem ele de ser plenamente perfeito, e infelizmente não são poucas principalmente no roteiro. No que se pode citar sem spoilers, o jogo apresenta alguns furos e uma certa repetição bem chata a partir da metade, fazendo com que provavelmente uns três capítulos sejam praticamente inúteis se não fossem algumas revelações dos mesmos. A dublagem não é ruim, mas em alguns momentos de personagens específicos podem soar estranhos, mas em sua maioria ela é ótima e muito expressiva. E partindo para os problemas sérios que envolvem SPOILERS...


Esse parágrafo contém spoilers, caso não queira saber deles, pule para o próximo.

  Bravely Default, em sua repetição, tenta amenizar o problema pelas revelações que vamos descobrindo pelos últimos capítulos, mas as mesmas são confusas, como Ringabel ter descoberto as artimanhas de Airy antes de todo mundo, contado a Tiz e Agnès mas simplesmente ter deixado o plano dela progredir. Ou o fato do jogo, através de momentos como esse de Ringabel, te incentivar muito a destruir um dos cristais ao invés de despertá-lo, mas ao fazer tal ação o jogador é levado ao final falso do game, de maneira que o boss final nunca é revelado. E é impossível não citar como o jogo decai muito em sua segunda metade, algo que você provavelmente pode ver pessoas dizendo em vários lugares, e está certo. O capítulo cinco ao oito são bem sofridos de se passar, e com certeza entediantes. Mesmo que o jogo tenha como lição não seguir cegamente o que nos é dito, criticando também como os jogos atualmente funcionam, ele acaba se contradizendo e até insultando a inteligência do jogador, já que o final verdadeiro e considerado "bom" se encontra após passarmos oito capítulos seguindo cegamente algo que a maioria pode facilmente perceber que é uma farsa, de maneira que a repetição se torna mais chata ainda. Pelo jeito isso foi algo que os desenvolvedores não pretendiam, mas acharam que o que tinham mente era muito arriscado, deixando apenas como final falso, o que é uma pena. 

Agora, sem spoilers, e pra finalizar...


  Bravely Default é um título incrível. Feito com muito carinho e com uma equipe sensacional, sendo uma ótima homenagem à Final Fantasy, quase da família da franquia. Ele tem seus erros e daria pra escrever um texto inteiro sobre eles, já que infelizmente são uma mancha pesada nessa bela e divertida aventura, mas ele não perde os seus méritos. Um jogo praticamente obrigatório na biblioteca do Nintendo 3DS, com um ótimo sistema de combate, personagens incríveis, uma arte sensacional, valendo muito a experiência, e que com (bastante) paciência pode ser algo verdadeiramente mágico. E claro, as músicas têm uma responsabilidade incrível nesse meio, essas que inclusive vão te conquistar com certeza. E é com uma amostra dessa experiência que eu me despeço, fique com a maravilhosa música do menu deste jogo, e sinta-se convidado a partir bravamente nessa jornada

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