Mulan | Crítica


Depois de muito postergar, resolvi finalmente assistir Mulan, o mais novo live-action da Disney da série de filmes onde vemos remakes de clássicos da empresa. Com um investimento de 200 milhões de dólares e a promessa de trazer uma versão um pouco mais realista em comparação a animação em que é baseada, o filme realmente me animou e me fez ter expectativas de enfim a disney acertar um nessa onda de remakes. Bom, eu não podia estar mais enganado.

Bom, a história de Mulan, dirigido por Niki Caro, nos apresenta à lenda de uma icônica guerreira chinesa, em que uma jovem destemida arrisca a própria vida por amor à família e à pátria para se tornar uma das maiores guerreiras de toda a China. Quando o Imperador da China emite um decreto estabelecendo que um homem de cada família deve servir no exército imperial para defender o país dos invasores do Norte, Hua Mulan, a filha mais velha de um honrado guerreiro se apresenta no lugar de seu pai adoentado. Disfarçada de homem, como Hua Jun, ela é testada a cada etapa do caminho e deve controlar sua força interior e abraçar seu verdadeiro potencial. É uma jornada que vai transformá-la em uma reverenciada guerreira e levá-la a conquistar o respeito de uma nação agradecida e um pai orgulhoso.

Lendo assim, parece a sinopse de um bom filme, mas acabamos percebendo que o filme passa um pouco longe dessa descrição, e tudo isso passa pela descaracterização da personagem principal, afinal a história corre através dela. Suas motivações foram alteradas para este remake, onde ela deixa de ser uma personagem buscando seu lugar no mundo do seu próprio jeito, sendo livre pra escolher além do que a sociedade quer que ela seja, mesmo que para isso tenha que buscar algo impensado para época, como uma mulher se tornar uma guerreira, e a chance de ir no lugar do seu pai para a guerra acaba sendo a oportunidade que ela tanto queria para se libertar. Nessa nova versão, ela é apenas uma garota que não se encaixa nos padrões de gênero de sua sociedade e por isso quer lutar, então se o filme tentou representar os mesmos ideais da animação, acabou falhando miseravelmente.


O principal ponto negativo pra mim foi todo o conceito de Chi que o filme não trabalhou, nem ao menos tentou, apenas jogou pra cima e viu no que ia dar, e acabou dando em algo ridículo. Se a ideia de retirar Mushu e o Grilo, companheiros animais de Mulan durante a trama, era tornar o filme mais real, eu não sei mesmo onde eles pretendiam ir relacionando realismo e o uso do Chi. Além de ser estúpido ver personagens chutando flechas ou usando magias e manipulando objetos ao maior estilo Star Wars, todas essas habilidades acabaram deixando Mulan extremamente forte desde o começo do filme, fazendo com que a personagem não mostrasse nenhuma evolução desde o começo do filme, seja em sua força ou em seus conceitos. Além da direção claramente não saber o que estava fazendo com isso, também é fácil perceber que o filme não tenta ser ousado. Ele tem ação, mas só um pouco; é engraçado, mas apenas de forma suave; tenta ser sério, mas não muito. O filme tentou agradar todo mundo e acabou não agradando ninguém.

Não me entenda mal, o filme entretém, dá pra passar o tempo. Porém, com tudo que foi investido e trabalhado nele, ele ficou longe de ser bom de fato, mas longe mesmo. O filme já começa errado por se considerar um remake da animação, visto que por conta das mudanças feitas na narrativa e em seus personagens, o filme acaba se distanciando bastante da animação, então já temos aí o primeiro grande problema.

Bom, os personagens desse filme tem um sério problema sobre parecerem reais. Eles agem de forma muito artificial, quase que apenas para a narrativa caminhar conforme a vontade do roteirista, mas você não sente motivação em seus atos, são muito planos. Por exemplo, o vilão quer vingança pela morte de seu pai, mas quais as circunstâncias dessa morte ou o que a motivou, para o filho ter uma razão para matar o imperador? Quem se importa, ele matou meu pai e eu quero mata-lo, e pronto, o espectador que aceite. Pior ainda a bruxa(!!!), que aparece do nada, para fazer um contraponto a protagonista mostrando que ambas são iguais porém tomaram decisões diferentes, e acabou morrendo de uma maneira tão irrelevante quanto o jeito que surgiu. Outro detalhe é que a direção não soube dar um desenvolvimento aos personagens, você termina o filme e não consegue uma evolução, não consegue dizer que o personagem está de fato diferente de como começou, e acaba sendo muito frustrante ver que acompanhamos uma história por duas horas e a única mudança foi que no fim Mulan consegue ser reconhecida como guerreira e... só. É tudo muito raso.


Sobre a trilha sonora, ela é quase que inexistente. Você escuta uma música genérica aqui e ali, alguns easters eggs envolvendo a trilha sonora original, mas nada muito marcante, infelizmente qualquer música empolgante caberia ali em seus momentos de clímax. Pelo menos os aspectos visuais do filme ainda acabam salvando um pouco nessa questão que não envolve o roteiro em si, possivelmente foi onde o investimento da obra foi mais pesado. Os cenários são bem caracterizados e acabam sendo um grande atrativo, principalmente nas cenas de ação. Ainda temos toda a questão das incongruências visuais em relação a cultura oriental, que segundo pessoas especialistas no assunto, o filme de fato ficou devendo, mas acho que até dá pra relevar, afinal retratar o oriente nunca foi lá o ponto forte das obras ocidentais.

No fim das contas, o filme teve de fato um bom retorno financeiro, mas tenho minhas dúvidas se, caso tivesse saído nas telonas em um cenário sem COVID, teria esse mesmo sucesso em questão de bilheteria. O preço exorbitante para ter acesso ao filme (por volta de 50 doláres) talvez explique esse sucesso, pois não consigo achar outro motivo para tal. Um filme com potencial para criar um material único, mas que acabou sendo estragado, mais uma vez, pela mania da Disney de querer mexer onde não deve em seus clássicos.

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