Crítica | Sword Art Online - Aincrad Vol. 1



Com seus primeiros resquícios de existência em 2002, Sword Art Online tinha sido inicialmente um livro criado por Reki Kawahara para um concurso literário, mas o autor havia excedido o número de páginas. Sem vontade de enxugar sua obra para o concurso, ele decidiu jogar tudo na internet, o que resultou em reações positivas dos leitores e fez com que Reki continuasse a escrever mais e mais sobre o universo que criara, até que, no início de 2009, o primeiro volume de SAO era publicado em formato de light novel, que mais para frente seria adaptado para mangá e anime.

A história se passa em 2022, quando o cientista Akihiko Kayaba, junto da empresa ARGUS, consegue ultrapassar as barreiras da tecnologia e desenvolve o primeiro vídeo game - batizado de Nerve Gear - capaz de transportar a mente humana para um mundo virtual online. No lançamento, são colocados para venda dez mil unidades do console (que nada mais é do que um capacete que cobre toda sua cabeça) junto do game que iria inaugurar a estreia: Sword Art Online, um MMO de combate de espadas dentro de um castelo gigante composto por cem andares, que flutua ao redor de um céu infinito. Quando todos os consoles se conectam, Akihiko retira a opção de dar logout do sistema e prende todos os jogadores ali dentro, alegando que, para escapar, era necessário completar todos os andares e, se os pontos de vida de alguém chegasse a zero, o capacete conectado à pessoa fritaria o cérebro do jogador, matando-a no mundo real também. E assim o jogo tem início.

Seguimos a narrativa pelos olhos de Kirito, um jovem viciado em jogos que foca em subir seu nível com alta velocidade para completar os cem andares, mas que fica indeciso quanto a zerar o jogo o mais rápido possível quando aprofunda sua relação com Asuna. Não demora para ficar claro que o arco principal são na verdade dois: a conclusão do jogo e o relacionamento entre esses dois personagens, onde ambas as tramas são intrínsecas. A dupla faz parte da vanguarda que derrota os chefes de cada piso para liberar o próximo andar, ao mesmo que decidem tirar um tempo da linha de frente para viverem como um casal dentro daquele mundo. O autor não se perde ao dividir o foco da narrativa entre essas duas tramas, no entanto, dado o salto temporal que a história tem, o desenvolvimento do relacionamento entre eles não nos é mostrado e, quando Asuna é apresentada pela primeira vez, ambos já estão a meio caminho de começarem um namoro. Em outras palavras, o leitor pega o bonde andando, ficando com uma pulga atrás da orelha e se perguntando como eles chegaram até esse ponto. Há apenas uma breve explicação para isso que a própria Asuna faz, mas que seria muito melhor se nos fosse mostrado antes. Tudo parece acontecer rápido demais aos nossos olhos devido ao fato da história se passar dois anos após o incidente começar.

Se o livro comete esses pequenos deslizes no desenvolvimento amoroso dos dois, por outro lado acabamos por não sentir esse descontentamento por completo por causa da maneira como a história é narrada e pela verossimilhança do personagem principal. O autor explora seu protagonista com perspicácia e faz com que os momentos entre os dois jovens com sentimentos a flor da pele sejam correspondentes com a idade deles. As descrições e passagens que Kirito faz sobre Asuna tem suas melosidades adolescentes, mas sem chegar ao ponto de serem piegas ou invasivas. No momento mais íntimo, é tudo retratado de maneira delicada, que não soa como uma sexualizacão barata feita para agradar adolescentes que não desgrudam do monitor (embora o público que mais consome SAO seja justamente esse, dado os momentos questionáveis que a adaptação para anime possui). Foi um acerto de Reki e da ilustradora não fazer nada apelativo demais só para atrair o público retratado acima. Kirito é um adolescente e protagonista padrão de livros infanto-juvenis. É o típico garoto que, por ser fissurado em jogos, não é muito hábil com relacionamentos sociais. No entanto, o protagonismo e destaque que vai conquistando ao redor de todas as cidades do jogo assim como Asuna - por mais que isso seja algo clichê - não são exagerados nem tampouco sem sentido, dadas às circunstâncias da história. Afinal, todos estão dentro de um MMO. Idade pouco importa para definir a força e destreza de alguém, isso é decidido por níveis e números, e quem mais consome jogos online são, de fato, os jovens.

Quando o livro está focado em contar a jornada para encerrar o jogo, vamos descobrindo mais sobre como funciona aquele mundo enquanto acompanhamos as lutas contra os inimigos. As batalhas são bem detalhadas na medida certa e empolgam junto ao caminhar da narrativa, mesmo que sejam poucas as vezes em que elas ocorrem. Não vejo isso como uma coisa a ser considerada negativa pois, ainda que eu ansiasse por mais, fica claro que a intenção aqui nunca foi encher as páginas com espadas se cruzando sem motivo. Este livro é sobre um romance perfeito (por hora) sobre dois jovens e sobre como um mundo virtual é visto e vivido por quem está dentro dele, e aí chegamos em um dos pontos mais altos do livro.

Depois do caos no início, ao descobrirem que estão aprisionados, o tempo passa e assim que conseguem se organizar como uma civilização nesse lugar desconhecido, alguns jogadores se acomodam. Procuram profissões para se manterem e deixam a tarefa de completar o jogo em outras mãos, assim entram na zona de conforto, já outros se tornam criminosos e passam a cometer assaltos nas estradas nos jogadores de nível mais baixo. Cada um arranja um jeito de se manter nesse mundo, que tem suas próprias leis, limitações, cidades e todo tipo de ambiente e bioma. Não há um questionamento filosófico sobre o que é real e o que não é, todos sabem que seus corpos estão deitados e definhando no mundo real, mas preferem fazer desse pensamento um tabu e tentam se adaptar com o lugar que estão agora. Cada um sabe a verdade, mas uma hora, após tanto tempo vivendo ali, o questionamento surge: "ainda faz diferença?"

Sendo superior ao anime por causa do aprofundamento mais preciso de seus personagens e um tratamento mais adequado com eles, o primeiro volume de Sword Art Online é uma excelente obra sobre aquilo que se propõe a contar. Mesmo tendo seus defeitos nas questões de desenvolvimento, Kawahara tomou a decisão certa de não fazer um tomo gigantesco e arrastado com explicações desnecessárias sobre cada andar - pelo menos não nesse volume - e manteve o foco nas coisas que mais devia, criando uma leitura leve, agradável e rápida - características de uma light novel - que tem o tamanho ideal e joga o leitor em uma realidade digital que muitos de nós desejamos que aconteça em um futuro. Sem a parte do aprisionamento, é claro.

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